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Janeiro/Fevereiro/Março de 2026 | Edição 01/2026 | 🕘 Tempo de leitura: 18 minutos 😜
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A maioria dos erros diagnósticos não nasce da falta de conhecimento. Nasce da forma como pensamos.
Nesta edição, o PediNews inaugura uma nova coluna para examinar as engrenagens ocultas da decisão médica: Anatomia do raciocínio clínico.
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NESTA EDIÇÃO |
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🌍 Pediatria ao redor do mundo
Vírus Nipah – que vírus é esse? Corremos risco?
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🧐 Fato ou Fake?
A vacina contra a Covid-19 causa Covid-longa?
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📢 Atualiza Aí
- Seus pacientes estão sendo encaminhados ao oftalmologista no momento certo?
- Triagem auditiva neonatal: diagnóstico precoce ainda é o maior determinante de prognóstico
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❓ Quando chamar o especialista?
Quando consultar um médico geneticista no período perinatal?
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🧠 Anatomia do raciocínio clínico
Como pensamos quando fazemos um diagnóstico
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🍞 Saindo do forno
- Contato pele a pele imediato após o nascimento: impacto no aleitamento materno
- Investigação genética na baixa estatura infantil
- Leite humano como terapia para o cérebro do prematuro
- Anafilaxia alimentar: desafios globais e novos alérgenos emergentes
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🏅 Prata da Casa
- Trajetória da fenilcetonúria no Brasil: o que os dados nacionais revelam
- Paralisia cerebral no Brasil: o maior retrato já publicado
- Fibrose miocárdica na Tetralogia de Fallot corrigida: contribuição brasileira para o acompanhamento a longo prazo
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🩸 Doa-se Saber
- PBM (Patient Blood Management) e pediatria
- Transfusão restritiva
- Transfusão em Doença Falciforme
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🗣️Do Outro Lado da Mesa
Ácido folínico, autismo e a tentação das explicações simples
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💭 Pausa para Refletir
- CFM normatiza o uso da Inteligência Artificial na medicina - Amamentar vivendo com HIV: quando a decisão é compartilhada - Ciência brasileira ganha mais espaço: CAPES amplia acordos para publicar em acesso aberto
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👓 Caleidoscópio
Tia ou tio de quem?
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📣SOPERJ Informa!
SOPERJ lança nova trilha sobre causas externas na infância e adolescência
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📚 Educação Continuada SOPERJ
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🗓️ Agenda Pediátrica
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🌍 PEDIATRIA AO REDOR DO MUNDO |
Vírus Nipah – que vírus é esse? Corremos risco? ✍️ por DC de Infectologia da SOPERJ
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Em 26 de janeiro de 2026, o Sistema Integrado de Proteção de Pacientes da Índia notificou a Organização Mundial da Saúde sobre dois casos confirmados de infecção pelo vírus Nipah (NiV) no estado de Bengala Ocidental. Embora o evento tenha chamado atenção da comunidade internacional, a OMS considera o risco atual de disseminação baixo.
Mas afinal, que vírus é esse?
O vírus Nipah é um vírus zoonótico , ou seja, capaz de ser transmitido de animais para humanos. Em determinadas circunstâncias, também pode ocorrer transmissão por alimentos contaminados ou diretamente entre pessoas. O vírus foi identificado pela primeira vez há cerca de 20 anos, durante um surto na Malásia, e desde então episódios esporádicos vêm sendo registrados em países do Sul e Sudeste da Ásia, especialmente na Índia e em Bangladesh.
A transmissão para humanos ocorre principalmente por contato direto com animais infectados, como morcegos frugívoros, porcos ou cavalos. Outra via importante é o consumo de frutas ou produtos derivados de frutas contaminadas, como o suco de tâmara cru — bebida tradicional em algumas regiões e que pode ser contaminada por morcegos. O período de incubação costuma variar entre 3 e 14 dias.
Do ponto de vista clínico, a infecção pode ser bastante variável. Algumas pessoas permanecem assintomáticas. Na maioria dos casos, entretanto, o quadro se inicia com febre e sintomas inespecíficos, podendo evoluir para manifestações que acometem o sistema nervoso central ou o sistema respiratório.
📊 Quadro clínico do vírus Nipah
| Categoria |
Manifestações descritas |
| Sintomas iniciais |
Febre, mal-estar, fadiga e calafrios |
| Sintomas neurológicos |
Cefaleia, sonolência, confusão mental e tontura |
| Sintomas respiratórios |
Tosse e dispneia |
| Sintomas gastrointestinais |
Náuseas, vômitos e diarreia |
| Complicação grave |
Encefalite aguda |
| Período de incubação |
Em torno de 3-14 dias |
Nos quadros mais graves, pode ocorrer encefalite, condição associada a alta letalidade.
O diagnóstico clínico pode ser difícil, pois a doença pode se confundir com outras causas de encefalite ou pneumonia infecciosa. Por isso, a confirmação depende de exames laboratoriais. O principal método diagnóstico é a detecção do vírus por RT-PCR em amostras respiratórias, sangue ou líquido cefalorraquidiano. A sorologia por ELISA também pode ser utilizada para detecção de anticorpos.
Até o momento, não existe tratamento antiviral específico aprovado para a infecção pelo vírus Nipah. O manejo baseia-se principalmente em cuidados de suporte, com monitorização clínica e tratamento das complicações.
Também não há vacina disponível, embora diversos candidatos estejam em desenvolvimento. Devido ao seu potencial epidêmico e à elevada letalidade observada em alguns surtos, a doença pelo vírus Nipah foi incluída pela OMS na lista de patógenos prioritários para pesquisa e desenvolvimento.
Apesar da repercussão recente dos casos na Índia, o Ministério da Saúde do Brasil e a OMS afirmam que o risco de propagação do vírus é considerado baixo neste momento.
Ainda assim, episódios como esse reforçam um ponto importante para a pediatria global: muitas das doenças emergentes das próximas décadas terão origem zoonótica, exigindo vigilância epidemiológica constante e colaboração internacional.
📍 Quer ler mais sobre o assunto?
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🧐 FATO OU FAKE? |
A vacina contra a Covid-19 causa Covid-longa?
✍️ por DC de Infectologia e GT de Imunizações da SOPERJ |
Fake.
Os Departamentos Científicos de Infectologia e o Grupo de Trabalho de Imunizações da SOPERJ publicam esta nota diante da recente circulação de informações que sugerem uma associação entre a vacina de mRNA contra a Covid-19 e o desenvolvimento de sintomas compatíveis com Covid-longa.
A controvérsia surgiu após a retratação de um relato de caso publicado por médicos brasileiros que propunha a existência de uma suposta “síndrome pós-spike” ou “spikeopatia”. O texto sugeria uma relação entre a proteína Spike produzida pela vacina e manifestações clínicas persistentes. É fundamental esclarecer que relatos de caso descrevem observações clínicas individuais ou de pequenos grupos e têm como principal função gerar hipóteses. Não possuem metodologia analítica estruturada, não incluem análise estatística robusta e não estabelecem causalidade. Portanto, não constituem evidência suficiente para orientar condutas clínicas ou fundamentar afirmações generalizáveis.
No caso em questão, o periódico optou pela retratação porque, segundo seus editores, embora apresentado como relato descritivo, sua divulgação poderia estimular o uso prematuro de terapias não validadas, como propostas de “detox vacinal”, sem respaldo científico adequado. O risco potencial à saúde pública superava os possíveis benefícios da manutenção da publicação.
Até o momento, não existem evidências robustas que sustentem qualquer relação causal entre a proteína Spike produzida pelas vacinas de RNA mensageiro e o desenvolvimento de Covid-longa.
Desde 2020, observa-se um conjunto de sintomas persistentes após a infecção aguda pelo SARS-CoV-2. Em crianças e adolescentes, define-se Covid-longa como a persistência de sintomas por pelo menos 12 semanas após infecção confirmada, com impacto funcional nas atividades diárias e evolução variável ao longo do tempo. A prevalência descrita na população pediátrica varia amplamente, refletindo diferenças metodológicas entre estudos. As manifestações são heterogêneas e podem incluir sintomas respiratórios, cardiovasculares, neuropsiquiátricos, musculoesqueléticos e fadiga persistente. O manejo deve ser individualizado, com abordagem multidisciplinar e coordenação preferencial na atenção primária.
As hipóteses fisiopatológicas atualmente descritas envolvem inflamação persistente induzida pelo vírus selvagem, desregulação imune, possível autoimunidade e alterações inflamatórias sistêmicas. Nenhum estudo demonstrou associação causal entre vacinação e Covid-longa. Ao contrário, revisões sistemáticas e metanálises indicam que a vacinação, inclusive com plataformas de RNA mensageiro, está associada à redução do risco de desenvolvimento de Covid-longa desde a primeira dose.
Diante da circulação acelerada de informações, é essencial diferenciar a hipótese da evidência. Relatos isolados não substituem estudos robustos. Até o momento, as melhores evidências disponíveis indicam que a vacinação permanece uma estratégia segura e eficaz, inclusive na redução do risco de formas prolongadas da doença.
📍 Quer ler mais sobre o assunto?
Chiappini E, Pellegrino R, Nascimento-Carvalho CM, Galli L. Recent Insights on Post-COVID in Pediatrics. Pediatr Infect Dis J. 2023 Aug 1;42(8):e304-e307. doi: 10.1097/INF.0000000000003976. Epub 2023 Apr 20.
Suran M. Studies Investigate Whether Antivirals Like Paxlovid May Prevent Long COVID. JAMA. 2024 Jan 9;331(2):98-100. doi: 10.1001/jama.2023.24103.
Ceban F, Kulzhabayeva D, Rodrigues NB, Di Vincenzo JD, Gill H, Subramaniapillai M, Lui LMW, Cao B, Mansur RB, Ho RC, Burke MJ, Rhee TG, Rosenblat JD, McIntyre RS. COVID-19 vaccination for the prevention and treatment of long COVID: A systematic review and meta-analysis. Brain Behav Immun. 2023 Jul;111:211-229. doi: 10.1016/j.bbi.2023.03.022. Epub 2023 Mar 27. Erratum in: Brain Behav Immun. 2024 Jan;115:758. doi:
10.1016/j.bbi.2023.09.020.
Toepfner N, Brinkmann F, Augustin S, Stojanov S, Behrends U. Long COVID in pediatrics-epidemiology, diagnosis, and management. Eur J Pediatr. 2024 Apr;183(4):1543-1553. doi: 10.1007/s00431-023-05360-y. Epub 2024 Jan 27.
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📢 ATUALIZA AÍ |
Seus pacientes estão sendo encaminhados ao oftalmologista no momento certo?
✍️ por GT de Oftalmopediatria da SOPERJ
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A saúde ocular infantil é parte estruturante do desenvolvimento neurovisual e do desempenho escolar. Diferentemente do adulto, porém, a criança raramente verbaliza perda visual. Muitas alterações são silenciosas, unilaterais ou progressivas e, quando percebidas tardiamente, podem já ter ultrapassado a janela ideal de intervenção.
Por isso, o acompanhamento não deve depender de queixas. Ele precisa ser sistemático.
As Diretrizes Brasileiras da Sociedade Brasileira de Oftalmologia Pediátrica estabelecem recomendações claras sobre frequência e componentes da avaliação oftalmológica em crianças saudáveis menores de 5 anos . O racional é simples: organizar o cuidado no tempo certo reduz o risco de ambliopia, permite correção precoce de erros refrativos e viabiliza o diagnóstico de doenças congênitas potencialmente graves.
Para facilitar a aplicação prática na rotina do consultório, segue o resumo objetivo das recomendações:
Acompanhamento visual na infância: resumo prático
| Idade |
Conduta recomendada |
| 0-72 horas de vida |
Teste do reflexo vermelho na maternidade |
0–3 anos
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Repetir reflexo vermelho ≥ 3 vezes/ano
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| 0–36 meses |
Avaliar marcos visuais, fixação e alinhamento ocular nas consultas de puericultura
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| 6-12 meses |
Exame oftalmológico completo pode ser realizado (quando disponível) |
3–5 anos (idealmente aos 3 anos)
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Exame oftalmológico completo obrigatório |
| Qualquer idade |
Encaminhar imediatamente se reflexo vermelho alterado, fatores de risco ou suspeita clínica
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Encaminhar no momento certo não significa encaminhar todos precocemente e, sim, identificar quem precisa antes que a oportunidade terapêutica se perca. Em oftalmologia pediátrica, tempo é visão.
📍 Quer ler mais sobre o assunto?
Rossetto JD, Hopker LM, Carvalho LEMR, Vadas MG, Zin AA, Mendonça TS, Solé D, Silva LR, Rolim-de-Moura C, Sá LCF, Ejzenbaum F. Brazilian guidelines on the frequency of ophthalmic assessment and recommended examinations in healthy children younger than 5 years. Arq Bras Oftalmol. 2021 Nov-Dec;84(6):561-568. doi: 10.5935/0004-2749.20210093.
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Triagem auditiva neonatal: diagnóstico precoce ainda é o maior determinante de prognóstico
✍️ por Eveline Tasca Rodrigues (GT de Otorrinolaringologia da SOPERJ)
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A deficiência auditiva na infância muitas vezes passa despercebida, especialmente nos primeiros anos de vida, quando atrasos de linguagem podem ser interpretados apenas como variações do desenvolvimento. No entanto, a perda auditiva não identificada precocemente pode levar a atrasos na aquisição da linguagem, prejuízos cognitivos, dificuldades escolares e maior risco de problemas emocionais e comportamentais.
Estudos mostram que crianças com perda auditiva profunda apresentam prevalência significativamente maior de transtornos psiquiátricos, podendo chegar a 50% em alguns grupos avaliados. Por esse motivo, a detecção precoce e o início rápido da reabilitação auditiva são determinantes para reduzir o impacto da deficiência auditiva no desenvolvimento infantil.
No Brasil, a Triagem Auditiva Neonatal Universal tornou-se obrigatória em 2010, por meio da Lei nº 12.303, conhecida como Lei do Teste da Orelhinha. A implementação desse programa reduziu significativamente a idade média do diagnóstico, que anteriormente ocorria muitas vezes apenas após atraso evidente de linguagem.
Hoje, sabe-se que quanto mais cedo a perda auditiva é identificada e tratada, melhores são os desfechos no desenvolvimento da linguagem. Idealmente, a intervenção deve ocorrer ainda nos primeiros meses de vida, preferencialmente antes dos 6 meses.
Outro ponto importante para o pediatra é reconhecer condições comuns que podem comprometer a audição na infância. Entre elas, a otite média com efusão associada à obstrução nasal crônica ou ronco noturno, considerada uma das causas evitáveis mais frequentes de perda auditiva condutiva em crianças.
Com os avanços tecnológicos, diversas estratégias de reabilitação auditiva estão disponíveis, incluindo aparelhos auditivos modernos, próteses osteointegradas e implantes cocleares. Mesmo em perdas auditivas mais severas, intervenções precoces permitem melhores resultados de linguagem e desenvolvimento.
📍 Quer ler mais sobre o assunto?
Silva VAR, Pauna HF, Lavinsky J, Hyppolito MA, Vianna MF, Leal M, Massuda ET, Hamerschmidt R, Bahmad F Jr, Cal RV, Sampaio ALL, Felix F, Chone CT, Castilho AM. Task force Guideline of Brazilian Society of Otology - hearing loss in children - Part II - Treatment. Braz J Otorhinolaryngol. 2023 Jan-Feb;89(1):190-206. doi: 10.1016/j.bjorl.2022.11.001. Epub 2022 Nov 26.
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❓ QUANDO CHAMAR O ESPECIALISTA |
Quando consultar um médico geneticista no período perinatal?
✍️ por Tatiana de Sá Pacheco Carneiro de Magalhães (DC de Genética da SOPERJ)
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O teste genético tem ganhado espaço crescente na neonatologia e na pediatria. Com o avanço do sequenciamento genômico rápido, tornou-se possível identificar causas genéticas de doenças ainda no período neonatal, muitas vezes com impacto direto na condução clínica e no prognóstico.
Em geral, a avaliação por um médico geneticista deve ser considerada quando o recém-nascido apresenta dismorfias inexplicadas, uma ou mais anomalias congênitas, disfunção inexplicável de sistemas orgânicos ou gravidade clínica desproporcional ao quadro inicialmente identificado.
Nessas situações, quando as características clínicas não apontam claramente para uma síndrome específica ou para uma alteração cromossômica conhecida, recomenda-se uma investigação genética mais abrangente. Atualmente, o sequenciamento rápido do exoma ou do genoma tem sido cada vez mais utilizado nesses contextos.
Além da interpretação dos testes, o médico geneticista também desempenha um papel fundamental no aconselhamento genético das famílias, ajudando os pais a compreender os resultados, o risco de recorrência e as implicações para futuras gestações.
Diante da rápida evolução das ferramentas diagnósticas nessa área, torna-se cada vez mais importante que neonatologistas e pediatras se mantenham atualizados e trabalhem em colaboração com geneticistas clínicos ao longo de todo o processo de investigação molecular.
📍 Quer ler mais sobre o assunto?
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🧠 ANATOMIA DO RACIOCÍNIO CLÍNICO |
Como pensamos quando fazemos um diagnóstico
✍️ por Leonardo Campos (Redator do PediNews)
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Diagnosticar é, muitas vezes, lidar com histórias incompletas.
Na prática pediátrica, precisamos interpretar sinais e sintomas que raramente aparecem de forma “clássica”, integrar informações que surgem aos poucos e tomar decisões em meio à incerteza. Grande parte desse processo acontece de forma rápida e intuitiva, baseada no reconhecimento de padrões construídos ao longo da experiência clínica.
Esses atalhos mentais tornam o raciocínio diagnóstico eficiente, mas também podem nos levar a erros.
A coluna Anatomia do raciocínio clínico nasce para explorar exatamente esse processo. Em cada edição, um caso clínico servirá de ponto de partida para discutir como pensamos quando fazemos um diagnóstico, quais vieses podem surgir e quais estratégias ajudam a tornar nosso raciocínio clínico mais seguro. Nesta primeira edição, discutiremos conceitos importantes para a compreensão do assunto.
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Scripts clínicos: como o conhecimento se organiza
Com a experiência, médicos passam a organizar doenças em scripts (roteiros) clínicos (illness scripts): estruturas mentais que integram fatores de risco, fisiopatologia, apresentação clínica típica e evolução esperada de cada doença.
Ao avaliar um paciente, o cérebro compara automaticamente o quadro clínico com esses scripts armazenados na memória. Esse mecanismo explica por que médicos experientes frequentemente reconhecem diagnósticos rapidamente.
Entretanto, essa eficiência também pode trazer riscos. Quando a apresentação clínica não corresponde a um script prototípico, ou quando surgem informações conflitantes, pode haver dificuldade em revisar a impressão inicial. Esse fenômeno é descrito como expertise rotineira: profissionais com grande repertório de scripts que tentam encaixar problemas novos em soluções já conhecidas.
Quando a experiência atrapalha
Eventos recentes ou marcantes podem distorcer nossa percepção de probabilidades. Esse fenômeno é conhecido como viés de disponibilidade: condições que vêm facilmente à mente parecem mais frequentes do que realmente são.
Outro mecanismo comum é a ancoragem diagnóstica, quando a primeira hipótese formulada passa a orientar todo o raciocínio subsequente. Informações contrárias tendem a receber menos peso, um processo relacionado ao chamado viés de confirmação.
Esses vieses fazem parte do funcionamento normal da cognição humana. Na maioria das situações, heurísticas cognitivas ajudam a tornar o raciocínio clínico mais eficiente. Porém, em alguns contextos, podem contribuir para erros diagnósticos.
Metacognição: pensar sobre o próprio pensamento
Uma das estratégias mais importantes para reduzir erros diagnósticos é a metacognição, isto é, a capacidade de refletir sobre o próprio processo de raciocínio.
Metacognição envolve dar um passo atrás e questionar o próprio julgamento diagnóstico. Na prática clínica, isso pode ser tão simples quanto fazer algumas perguntas:
Estou preso à minha primeira hipótese?
Existe algum dado que não estou considerando?
Que diagnóstico perigoso ainda não excluí?
O que mais poderia explicar esse quadro?
Estudos mostram que reflexão deliberada melhora a acurácia diagnóstica, especialmente em casos complexos ou atípicos.
Estratégias para reduzir vieses cognitivos
Diversas estratégias de debiasing têm sido estudadas para tornar o raciocínio diagnóstico mais seguro. Entre as mais úteis estão:
considerar deliberadamente hipóteses alternativas
utilizar checklists cognitivos para revisar diagnósticos diferenciais
criar pontos de parada no raciocínio clínico, obrigando a reconsideração antes de decisões importantes
recorrer a ferramentas de apoio à decisão clínica
Embora nenhuma dessas estratégias elimine completamente os erros diagnósticos, elas ajudam a tornar o processo de tomada de decisão mais robusto.
📍 Quer ler mais sobre o assunto?
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🍞 SAINDO DO FORNO |
Contato pele a pele imediato após o nascimento: impacto no aleitamento materno
✍️ por Thais Junqueira Ferraz Villela (DC de Aleitamento Materno da SOPERJ)
Uma meta-análise recente da Cochrane (outubro de 2025), que reuniu dados de 26 ensaios clínicos randomizados, reforçou os benefícios do contato pele a pele imediato entre mãe e recém-nascido após o parto. Em comparação ao cuidado rotineiro com separação precoce, a prática esteve associada a maior probabilidade de manutenção do aleitamento materno exclusivo, inclusive no primeiro mês e em períodos posteriores, como aos 3 e 6 meses de vida. Além de favorecer a amamentação, o contato pele a pele contribui para estabilização da temperatura corporal, da frequência cardíaca e respiratória do recém-nascido e promove colonização precoce por microbiota materna, potencialmente reduzindo o risco de infecções. Os autores destacam que os resultados devem ser
interpretados com cautela devido à heterogeneidade dos estudos e ao fato de que todos foram conduzidos em países de média e alta renda. Ainda assim, os achados reforçam a recomendação da Organização Mundial da Saúde de que recém-nascidos com boa vitalidade permaneçam em contato pele a pele com a mãe durante a primeira hora de vida, com estímulo ao início da amamentação nesse período. A mensagem é clara: sempre que não houver contraindicações clínicas, o contato pele a pele deve ser considerado parte do cuidado padrão ao nascimento. Leia mais
Investigação genética na baixa estatura infantil
✍️ por Tatiana de Sá Pacheco Carneiro de Magalhães (DC de Genética da SOPERJ)
Uma diretriz internacional recente revisa o papel dos testes genéticos na investigação da baixa estatura em crianças, tema que ganhou nova dimensão com o avanço das tecnologias de sequenciamento genômico nas últimas duas décadas. Tradicionalmente definida como altura abaixo de −2 desvios-padrão para idade e sexo, a baixa estatura também pode ser considerada quando há queda progressiva no escore de altura ao longo do tempo ou quando a estatura da criança está abaixo do esperado em relação à altura-alvo familiar. A diretriz reforça que a avaliação inicial deve continuar sendo clínica e integrada — história médica e familiar detalhada, exame físico, idade óssea e exames laboratoriais — antes de partir para testes genéticos. Quando há suspeita de
etiologia genética, ferramentas como o sequenciamento de exoma ou genoma podem ajudar a identificar variantes monogênicas, combinações oligogênicas ou contribuições poligênicas associadas ao crescimento. Os autores também destacam que condições benignas, como o atraso constitucional do crescimento e da puberdade (CDGP), continuam sendo causas frequentes e devem ser consideradas antes de investigações moleculares mais amplas. A mensagem principal é que os testes genéticos estão ampliando a capacidade diagnóstica nos distúrbios do crescimento, mas devem ser utilizados de forma dirigida, dentro de uma avaliação clínica cuidadosa. Leia mais
Leite humano como terapia para o cérebro do prematuro
✍️ por Nayara Figueira Neves Alves (DC de Aleitamento Materno da SOPERJ)
Uma revisão narrativa recente publicada no Seminars in Perinatology reforça um conceito que vem ganhando força na neonatologia: o leite humano pode atuar não apenas como o alimento ideal, mas também como uma forma de terapia biológica para o recém-nascido, especialmente para prematuros. Além de reduzir mortalidade e morbidades neonatais, maior exposição ao leite humano tem sido associada a melhores desfechos de crescimento cerebral, organização da substância branca e desempenho neurológico ao longo da infância. Esses efeitos parecem estar relacionados à composição bioativa do leite humano, que inclui fatores de crescimento, ácidos graxos poli-insaturados de cadeia longa, oligossacarídeos, citocinas, microRNAs e componentes da membrana do glóbulo de gordura
do leite. Esses elementos participam de processos fundamentais para o cérebro em desenvolvimento, como mielinização, sinaptogênese e plasticidade neuronal, além de reduzir inflamação, infecções, sepse e enterocolite necrosante — condições frequentemente associadas à lesão cerebral neonatal. A revisão também destaca o potencial do leite humano como estratégia terapêutica em situações de lesão cerebral neonatal, como na hemorragia intraventricular. A mensagem é clara: garantir e apoiar o uso do leite da própria mãe, especialmente em prematuros e recém-nascidos criticamente enfermos, deve ser entendido como parte essencial do cuidado neurológico neonatal. Leia mais
Anafilaxia alimentar: desafios globais e novos alérgenos emergentes
✍️ por DC de Alergia e Imunologia da SOPERJ
Uma revisão recente publicada na Pediatric Allergy and Immunology discute as tendências globais da anafilaxia induzida por alimentos e chama atenção para um importante desequilíbrio na literatura científica: a maior parte dos dados epidemiológicos disponíveis vem de países de alta renda e de língua inglesa, enquanto ainda há escassez de informações provenientes de economias emergentes. O artigo destaca que, nesses contextos, diversos desafios dificultam o manejo adequado da anafilaxia alimentar, incluindo a presença de alérgenos regionais pouco estudados, acesso limitado a serviços de emergência e a especialistas em alergia, além da indisponibilidade de autoinjetores de adrenalina em muitos países. Os autores também discutem a emergência de novos
alérgenos alimentares e reforçam a importância de estratégias de manejo adaptadas a diferentes cenários de cuidado, como o ambiente hospitalar, domiciliar e escolar. Diante do aumento da incidência de anafilaxia alimentar nas últimas décadas — especialmente na população pediátrica — o artigo propõe um olhar ampliado sobre o problema em diferentes contextos globais e destaca a necessidade de melhorar o acesso ao diagnóstico e ao tratamento. A leitura é fortemente recomendada, pois traz uma perspectiva atualizada sobre a anafilaxia alimentar e reforça a importância de aprimorar o cuidado para reduzir a morbidade e a mortalidade associadas à condição em crianças e adolescentes. Leia mais.
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🏅 PRATA DA CASA |
✍️ por Leonardo Campos (Redator do PediNews) |
Trajetória da fenilcetonúria no Brasil: o que os dados nacionais revelam
Um estudo recente publicado no Lancet Regional Health Americas analisou a trajetória dos pacientes com fenilcetonúria (PKU) no Brasil a partir de dados do DATASUS. O trabalho contou com a participação de centros brasileiros de referência em erros inatos do metabolismo e teve entre as autoras, a Dra. Tatiana de Sá Pacheco Carneiro de Magalhães (DC de Genética e Geneticista do IFF-FIOCRUZ). A análise nacional confirma um avanço importante do Programa de Triagem Neonatal, com ampla cobertura do Teste do Pezinho e diagnóstico relativamente precoce da doença. No entanto, os dados
também revelam lacunas relevantes ao longo da trajetória desses pacientes no sistema de saúde. Embora o diagnóstico ocorra em média ainda nas primeiras semanas de vida, o acompanhamento registrado no sistema público aparece tardiamente e menos da metade dos pacientes têm registro de recebimento da fórmula metabólica isenta de fenilalanina, componente essencial do tratamento. O estudo também chama atenção para os desafios ao longo do ciclo de vida. Em crianças predominam distúrbios metabólicos associados, enquanto em adultos surgem com maior frequência transtornos mentais e comportamentais, reforçando a importância do controle metabólico contínuo e do acompanhamento especializado.
📊 Fenilcetonúria no Brasil em números
| Indicador |
Resultado
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| Cobertura do Teste do Pezinho |
> 80% dos recém-nascidos testados até 30 dias |
| Incidência anual |
4–8 casos por 100.000 nascidos vivos |
| Tempo médio até diagnóstico |
~18 dias |
| Pacientes identificados no DATASUS |
7.615 |
| Idade média no primeiro registro |
6,1 anos |
| Pacientes com registro de fórmula metabólica |
44 % |
| Região com maior número de casos |
Sudeste (53 %) |
Para a prática clínica, os resultados reforçam três pontos centrais: a importância da triagem neonatal para diagnóstico precoce, a necessidade de garantir acesso contínuo à fórmula metabólica e o acompanhamento cuidadoso na transição para a vida adulta, período em que complicações neuropsiquiátricas se tornam mais frequentes
Paralisia cerebral no Brasil: o maior retrato já publicado
A paralisia cerebral (PC) é a deficiência física mais comum na infância e tem prevalência global estimada em cerca de 2,1 por 1000 nascidos vivos. Em países de baixa e média renda, como o Brasil, esse número pode chegar a 3,4 por 1000 nascidos vivos, com maior proporção de casos graves.
Um estudo multicêntrico recente publicado no Developmental Medicine & Child Neurology, no qual o Dr. Bruno Leonardo Scofano Dias (DC de Desenvolvimento e Reabilitação, DC de Doenças Crônicas e Complexas da SOPERJ e Rede SARAH) foi um dos coautores, descreveu 17.771 indivíduos com paralisia cerebral acompanhados entre janeiro de 2023 e setembro de 2024 nas nove unidades da Rede SARAH de Hospitais de Reabilitação, constituindo a maior amostra já relatada na América Latina. A maioria das crianças era das regiões Nordeste e Sudeste, refletindo a distribuição
populacional pediátrica do país. Houve discreta predominância de parto vaginal (53%) e proporções semelhantes de nascimentos a termo (50,3%) e prematuros (48,4%). Cerca de metade das crianças apresentou peso adequado ao nascer, enquanto 48% tinham baixo peso ao nascer.
Os fatores de risco perinatais foram os mais frequentes, padrão semelhante ao observado em outros países de baixa e média renda. O tipo espástico foi predominante (75,5%), assim como o acometimento bilateral (75,9%), e mais da metade das crianças foi classificada nos níveis III a V do GMFCS, indicando maior comprometimento funcional.
Os resultados mostram que o perfil brasileiro de paralisia cerebral apresenta características intermediárias entre países de alta renda e países de baixa e média renda, refletindo as desigualdades socioeconômicas e regionais do país. Os autores destacam que a criação de um registro nacional de paralisia cerebral seria fundamental para monitorar a carga da doença, orientar políticas públicas e melhorar o planejamento de estratégias de prevenção e reabilitação.
Fibrose miocárdica na Tetralogia de Fallot corrigida: contribuição brasileira para o acompanhamento a longo prazo
A Tetralogia de Fallot (TOF) corresponde a aproximadamente 7–10% das cardiopatias congênitas e, graças aos avanços cirúrgicos e ao aumento da sobrevida, estima-se que hoje exista um adulto com TOF corrigida para cada 3.000 a 5.000 habitantes. Esse cenário evidencia uma população crescente que necessita de acompanhamento especializado ao longo de toda a vida. Embora a ressonância magnética cardíaca seja amplamente utilizada para avaliar função e volumes ventriculares, sua aplicação específica na detecção de fibrose miocárdica nesses pacientes ainda não é rotina, principalmente devido às limitações técnicas relacionadas à análise do ventrículo direito.
Nesta revisão sistemática conduzida pelas Dras. Mariana Póvoa-Corrêa e Adriana Innocenzi (DC de Cardiologia da SOPERJ) em parceria com as Dras. Fernanda Padrão e Renata Moll-Bernardes e com o Instituto D’Or, foram analisados 14 estudos, totalizando 893 adultos com TOF corrigida e 284 controles. Os resultados mostraram aumento do volume extracelular em ambos os ventrículos, indicando presença de fibrose miocárdica difusa — uma alteração associada a pior prognóstico em longo prazo.
Tradicionalmente, a quantificação dessa fibrose depende do uso de contraste venoso. No entanto, a análise demonstrou que o T1 nativo — uma medida obtida na ressonância magnética que avalia características do tecido cardíaco sem necessidade de contraste — encontra-se elevado no ventrículo direito independentemente da intensidade do campo magnético. No ventrículo esquerdo, esse aumento foi observado em exames realizados em aparelhos de 3.0 Tesla, que correspondem a equipamentos de ressonância magnética com campo magnético mais potente e maior resolução de imagem.
Esses achados reforçam o potencial da ressonância magnética cardíaca para avaliar não apenas volumes ventriculares, mas também a caracterização do tecido miocárdico. A incorporação dessa abordagem ao seguimento rotineiro de pacientes com TOF pode ampliar a capacidade de estratificação de risco e monitoramento evolutivo, contribuindo para o cuidado a longo prazo dessa população crescente de adultos com cardiopatia congênita reparada.
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🩸 DOA-SE SABER |
✍️ por GT de Medicina Transfusional da SOPERJ |
Na pediatria, a transfusão de sangue está presente em diferentes cenários clínicos, desde a correção de anemia até o manejo de doenças hematológicas complexas. Nos últimos anos, no entanto, o entendimento sobre quando transfundir, quando evitar transfundir e como realizar transfusões com segurança evoluiu significativamente.
Nesta edição da coluna Doa-se Saber, reunimos três contribuições que dialogam entre si e ajudam a compreender esse novo paradigma da medicina transfusional pediátrica: o papel do pediatra na prevenção da anemia, as evidências mais recentes sobre limiares transfusionais, e os cuidados específicos com transfusões em crianças com doença falciforme.
1️⃣ Patient Blood Management (PBM)
O Patient Blood Management, definido pela Organização Mundial da Saúde, é um modelo de cuidado centrado no paciente que busca otimizar desfechos clínicos por meio da preservação do sangue autólogo e da redução da exposição a transfusões. Embora muitas vezes associado a cenários cirúrgicos ou de terapia intensiva, o PBM deve ser compreendido como uma estratégia longitudinal, que começa no acompanhamento
pediátrico de rotina.
Na prática, o primeiro pilar do PBM é a detecção e tratamento precoce da anemia, especialmente da anemia ferropriva — uma das condições mais prevalentes da infância, com impacto relevante no desenvolvimento neurocognitivo, na imunidade e no desempenho escolar.
Cada consulta pediátrica pode ser vista como uma oportunidade de rastreamento, particularmente em grupos de maior risco, como lactentes (especialmente prematuros), crianças com ingestão inadequada de ferro, portadores de doenças crônicas e adolescentes com perdas menstruais significativas.
A implementação efetiva do PBM reduz a necessidade de transfusões e está associada a menor risco de complicações e menor tempo de internação.
📍 Quer ler mais sobre o assunto?
Goobie SM, Gallagher T, Gross I, Shander A. Society for the advancement of blood management administrative and clinical standards for patient blood management programs. 4th edition (pediatric version). Paediatr Anaesth. 2019 Mar;29(3):231-236. doi: 10.1111/pan.13574.
De Santis GC, Costa L, Brunetta DM, Magnus MM, Benites BD, Rodrigues RDR, Alves SOC, Rizzo SRCP, Rabello G, Langhi DM Junior. Consensus of the Brazilian association of hematology, hemotherapy and cellular therapy on patient blood management: Anemia tolerance. Hematol Transfus Cell Ther. 2024 Apr;46 Suppl 1(Suppl 1):S67-S71. doi: 10.1016/j.htct.2024.02.018. Epub 2024 Mar 21.
2️⃣ Quando transfundir? O que mostram as evidências
✍️ por Flavia Bandeira (GT de Medicina Transfusional da SOPERJ)
A decisão de transfundir deve sempre considerar o contexto clínico do paciente. Uma revisão sistemática atualizada da Cochrane (Carson et al., 2025) comparou estratégias transfusionais restritivas e liberais e trouxe dados relevantes para a prática clínica.
Os resultados demonstram que uma estratégia restritiva, com limiar transfusional entre 7 e 8 g/dL, não aumenta a mortalidade quando comparada a estratégias liberais (9–10 g/dL) em grande parte dos pacientes hospitalizados. Na população pediátrica analisada, também não foi observada diferença clara na mortalidade em 30 dias entre as duas estratégias.
Uma exceção relevante é observada em pacientes neurocríticos com lesões cerebrais agudas, como trauma craniano ou hemorragia subaracnoidea. Nesses casos, estratégias transfusionais mais liberais demonstraram benefício em desfechos neurológicos de longo prazo. Embora os dados sejam predominantemente derivados de estudos em adultos, esse achado serve como alerta importante para cenários de terapia intensiva pediátrica.
Além disso, a estratégia restritiva reduz a exposição a transfusões e, consequentemente, diminui a ocorrência de eventos adversos relacionados ao uso de hemocomponentes.
📍 Quer ler mais sobre o assunto?
Carson JL, Stanworth SJ, Dennis JA, Fergusson DA, Pagano MB, Roubinian NH, Turgeon AF, Valentine S, Trivella M, Dorée C, Hébert PC. Transfusion thresholds and other strategies for guiding red blood cell transfusion. Cochrane Database Syst Rev. 2025 Oct 20;10(10):CD002042. doi: 10.1002/14651858.CD002042.pub6.
3️⃣ Transfusão em doença falciforme: quando o sangue é parte do tratamento
✍️ por Flavia Bandeira (GT de Medicina Transfusional da SOPERJ)
A doença falciforme é uma hemoglobinopatia hereditária causada pela mutação Glu6Val no gene da β-globina, que leva à produção da hemoglobina S. Em condições de hipóxia, a HbS se polimeriza, deformando os eritrócitos em forma de foice e desencadeando hemólise crônica, inflamação e eventos vaso-oclusivos.
No Brasil, cerca de 3.500 crianças com genótipo HbSS nascem anualmente, e a triagem neonatal universal permite diagnóstico precoce e acompanhamento especializado.
Nesse cenário, a transfusão tem papel central tanto no tratamento de complicações agudas quanto na prevenção de eventos graves, especialmente neurológicos.
📊 Principais indicações de transfusão na doença falciforme
| Situações agudas |
Terapia transfusional crônica |
| Síndrome torácica aguda |
Prevenção primária de AVC |
| AVC isquêmico |
Prevenção secundária de AVC |
| Sequestro esplênico ou hepático |
Complicações gestacionais |
| Crise anêmica grave |
Síndrome torácica aguda recorrente |
| Priapismo refratário |
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O manejo transfusional exige cuidados específicos para reduzir complicações.
📊 Cuidados essenciais na transfusão
| Medida |
Objetivo |
Fenotipagem eritrocitária estendida
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Reduzir risco de aloimunização |
| Genotipagem eritrocitária |
Casos politransfundidos |
| Hemocomponentes desleucocitados |
Reduzir reações febris e transmissão de CMV |
Entre as principais complicações transfusionais destacam-se sobrecarga de ferro, aloimunização eritrocitária, reações febris não hemolíticas e sobrecarga circulatória.
Por isso, sempre que uma transfusão for necessária, é fundamental que o pediatra entre em contato com o serviço de hemoterapia responsável pelo histórico transfusional da criança, garantindo a seleção adequada dos hemocomponentes.
📍 Quer ler mais sobre o assunto?
💡 Em síntese
A medicina transfusional pediátrica hoje se apoia em três princípios:
prevenir anemia sempre que possível
transfundir apenas quando necessário
transfundir com máxima segurança quando indicado
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🗣️ DO OUTRO LADO DA MESA |
Ácido folínico, autismo e a tentação das explicações simples
✍️ por Fabiane Ferreira Durão (DC de Desenvolvimento e Reabilitação da SOPERJ) |
Nos últimos anos ganhou força a hipótese de que uma parcela das crianças com transtorno do espectro autista (TEA) apresentaria uma condição chamada deficiência de folato cerebral (DFC), caracterizada por níveis reduzidos de 5-metiltetraidrofolato (5-MTHF) no sistema nervoso central. Um dos mecanismos propostos envolve a presença de autoanticorpos contra o receptor alfa do folato (FRAA), que poderiam dificultar a entrada de folato no cérebro.
Uma revisão sistemática recente com meta-análise sugere que cerca de 38% das crianças com TEA apresentariam DFC, aproximadamente 71% seriam positivas para FRAA e que, nos casos de DFC associados ao TEA, esses autoanticorpos estariam implicados em até 83% das situações.
Nesse contexto, o uso de d,l-leucovorina (ácido folínico) tem sido associado a melhora em aspectos como comunicação, sintomas centrais do TEA e manifestações associadas, incluindo irritabilidade, atenção e epilepsia. Os efeitos descritos variam de moderados a grandes, com perfil de segurança considerado favorável.
Um ensaio clínico randomizado, duplo-cego e controlado por placebo reforçou esse entusiasmo. Após 24 semanas, crianças que receberam ácido folínico apresentaram maior redução nos escores da CARS e melhora em indicadores comportamentais avaliados pelo CBCL, especialmente entre aquelas com títulos elevados de autoanticorpos contra o receptor de folato.
Para entender melhor:
• CARS (Childhood Autism Rating Scale): escala clínica usada por profissionais para avaliar a gravidade dos sintomas do autismo a partir da observação do comportamento da criança.
• CBCL (Child Behavior Checklist): questionário respondido pelos pais que avalia problemas emocionais e comportamentais da criança. Não é específico para autismo, mas ajuda a medir mudanças comportamentais ao longo do tratamento.
Até aqui, a narrativa parece sedutora: um subgrupo biologicamente definido, um marcador mensurável, uma intervenção relativamente simples e melhora clínica observável.
Mas é justamente nesse ponto que o pediatra precisa respirar fundo.
Apesar de metodologicamente relevantes, esses estudos não permitem uma leitura causal simplificada. Não se pode afirmar que o TEA seja consequência de deficiência de folato cerebral ou que a presença de autoanticorpos explique o autismo.
Alguns aspectos merecem cautela. As prevalências descritas variam amplamente entre estudos, refletindo heterogeneidade metodológica, critérios diagnósticos distintos e populações muito específicas. A presença de FRAA é frequente em crianças com TEA, mas não é exclusiva nem estabelece causalidade. Além disso, a melhora observada com ácido folínico ocorre frequentemente em paralelo a intervenções comportamentais intensivas, o que dificulta isolar o efeito clínico do suplemento. Os desfechos utilizados, como CARS e CBCL, captam mudanças comportamentais globais, mas não equivalem a normalização do desenvolvimento.
Em outras palavras, estamos falando de melhora de sintomas, não de reversão do TEA.
Talvez o impacto mais forte dessas hipóteses não esteja nos artigos, mas na forma como chegam às famílias.
Quando uma explicação biológica ganha visibilidade, surgem perguntas inevitáveis: “Se tivesse tratado antes?” “Será que foi algo que faltou na gestação?” “Existe um exame que explica o autismo do meu filho?”
Essas perguntas podem desencadear culpa retrospectiva, busca ansiosa por exames caros e suplementos, expectativa de um tratamento corretivo e frustração quando os ganhos são modestos ou inexistentes.
O problema não está no uso criterioso do ácido folínico. O problema surge quando uma hipótese promissora passa a ser apresentada como explicação totalizante para uma condição complexa.
Diante dessas evidências, talvez o papel do pediatra vá além de prescrever ou não prescrever. Cabe também traduzir limites da ciência, conter expectativas irreais e proteger as famílias de narrativas excessivamente simplificadoras.
O ácido folínico pode ser útil para subgrupos específicos de crianças com TEA. Mas não é uma chave mestra. Tratá-lo como tal pode gerar custos emocionais desnecessários para famílias que já enfrentam desafios significativos.
Entre a esperança e as modas terapêuticas, o pediatra continua sendo o principal mediador.
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💭 PAUSA PARA REFLETIR |
CFM normatiza o uso da Inteligência Artificial na medicina
✍️ por Leonardo Campos (Redator do PediNews)
A inteligência artificial já faz parte do cotidiano de muitos médicos — seja na interpretação de exames, na organização de dados clínicos ou no apoio à tomada de decisão. Agora, o Conselho Federal de Medicina (CFM) estabeleceu regras claras para esse uso.
Publicada no Diário Oficial da União em 27 de junho, a Resolução CFM nº 2.454/2026 cria o primeiro marco regulatório brasileiro para o uso da IA na prática médica. A norma reconhece o potencial da tecnologia para apoiar o cuidado em saúde, mas deixa um ponto inequívoco: a decisão final continua sendo do médico.
A resolução permite o uso da IA como ferramenta de apoio à decisão clínica, gestão em saúde, pesquisa científica e educação médica, desde que respeitados os limites éticos e legais da profissão. Também garante ao médico o direito de recusar tecnologias que não tenham validação científica ou certificação regulatória adequada.
Outro ponto central da norma é a preservação da relação médico–paciente. O paciente deve ser informado sempre que a IA for utilizada como suporte relevante em seu cuidado, e a tecnologia não pode substituir o julgamento clínico nem a comunicação direta com o paciente.
Além disso, a resolução reforça que dados de saúde devem seguir rigorosamente as regras de segurança e privacidade, em conformidade com a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). Instituições que utilizarem sistemas próprios de IA deverão estabelecer mecanismos de governança e supervisão.
Segundo o CFM, a regulamentação busca garantir que a incorporação dessas tecnologias ocorra de forma responsável, transparente e alinhada aos princípios éticos da medicina.
📊 O que muda na prática
| Medidas |
O que singifica na prática |
👨⚕️ Decisão continua sendo do médico
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A inteligência artificial pode ajudar, mas quem decide é sempre o médico.
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🗣 Paciente deve ser informado
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O paciente tem o direito de saber quando a IA está sendo usada no seu atendimento.
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🚫 IA não dá diagnóstico sozinha
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A tecnologia não pode comunicar diagnóstico ou tratamento sem a participação do médico.
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🔒 Proteção dos dados de saúde
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As informações do paciente devem seguir regras rígidas de segurança e privacidade.
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⚖️ Responsabilidade médica mantida
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O médico continua responsável pelo cuidado e deve usar a IA com senso crítico.
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⛔ Direito de não usar
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O médico pode recusar sistemas de IA que considere inadequados ou inseguros.
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🏥 Hospitais terão regras internas
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Instituições que utilizarem IA deverão criar mecanismos de controle e supervisão.
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💭 Para refletir
A resolução não tenta frear a tecnologia. Pelo contrário: reconhece que a IA veio para ficar. O objetivo é garantir que essa transformação ocorra sem perder o elemento central da medicina, que é o julgamento clínico humano e a relação de confiança com o paciente. No fim das contas, a mensagem é simples: a inteligência artificial pode apoiar o médico, mas nunca substituí-lo.
Amamentar vivendo com HIV: quando a decisão é compartilhada
✍️ por Fernanda Jundi (GT de HIV da SOPERJ)
Y. iniciou acompanhamento no ambulatório de adolescentes do Hospital Federal dos Servidores do Estado (HFSE) em 2011, aos 16 anos, durante a gestação de seu primeiro filho, quando recebeu o diagnóstico de HIV.
Desde 2014 mantém cargas virais indetectáveis em uso de terapia antirretroviral, atualmente com tenofovir, lamivudina e atazanavir/ritonavir. Nenhum dos seus três filhos adquiriu o vírus.
Apesar da boa evolução clínica, Y. relatava sofrimento por não poder amamentar seus filhos. Sentia-se estigmatizada pela equipe de saúde e descrevia como particularmente difícil o momento em que precisava manter os seios enfaixados no pós-parto.
Durante a gestação do quarto filho, manifestou novamente o desejo de amamentar. Compareceu à consulta de pré-natal acompanhada de um advogado e demonstrou conhecer diretrizes internacionais que vêm discutindo a flexibilização da amamentação em mulheres vivendo com HIV.
Comunicou à equipe sua decisão de amamentar, mesmo que não houvesse concordância dos profissionais.
Diante da situação, a equipe do serviço de Doenças Infecciosas e Parasitárias do HFSE optou por acolher a decisão da paciente e discutir o caso de forma ampliada. Houve reunião com o marido, pai dos quatro filhos, para avaliar o suporte familiar e a capacidade de manter adesão rigorosa ao tratamento no puerpério. A equipe da maternidade e do banco de leite também foi envolvida na discussão.
Durante a gestação, Y. manteve boa adesão à terapia antirretroviral e cargas virais indetectáveis, com exceção de um episódio isolado em maio de 2024, quando interrompeu a medicação por duas semanas devido a problemas domiciliares, apresentando carga viral de 172 cópias.
O parto ocorreu em novembro de 2024, por via vaginal, com 38 semanas e 5 dias, sem intercorrências. O recém-nascido foi classificado como de baixo risco conforme o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas de 2024. Não foi realizada zidovudina intraparto e o bebê recebeu profilaxia com zidovudina por 28 dias.
Mãe e filho passaram a ser acompanhados mensalmente. O bebê foi amamentado exclusivamente ao seio materno até os seis meses de vida, quando estava programado o início da introdução alimentar e o desmame. No entanto, Y. relatou dificuldade em interromper a amamentação e a criança permanece em aleitamento materno associado à alimentação complementar.
Até o momento, todas as cargas virais do bebê permanecem indetectáveis, assim como as da mãe.
Historicamente, a amamentação foi contraindicada para mulheres vivendo com HIV devido ao risco de transmissão vertical pelo leite materno. Entretanto, evidências mais recentes indicam que esse risco pode ser significativamente reduzido quando a mãe mantém boa adesão à terapia antirretroviral e cargas virais indetectáveis.
Embora o risco não seja considerado nulo, alguns países já passaram a discutir abordagens mais flexíveis, baseadas em acompanhamento rigoroso e decisão compartilhada entre equipe de saúde e família.
Este caso ilustra um cenário cada vez mais presente na prática clínica: situações em que avanços terapêuticos, autonomia da paciente e recomendações tradicionais precisam ser equilibrados na tomada de decisão.
💭 Para refletir
Diante de uma paciente com supressão viral sustentada e boa adesão à terapia antirretroviral, como conduzir o diálogo entre recomendações formais e a autonomia da família?
Ciência brasileira ganha mais espaço: CAPES amplia acordos para publicar em acesso aberto
✍️ por Leonardo Campos (Redator do PediNews)
Uma boa notícia para quem produz ciência no Brasil.
Nos últimos anos, o modelo de publicação científica vem passando por uma transformação global. Cada vez mais revistas migraram para o sistema open access, no qual os artigos ficam disponíveis gratuitamente para qualquer leitor. A contrapartida é que, em muitos casos, os autores precisam pagar taxas de publicação, as chamadas APCs (Article Processing Charges), que podem chegar a milhares de dólares.
Para enfrentar esse desafio e ampliar a visibilidade da produção científica brasileira, a CAPES vem firmando os chamados acordos transformativos com grandes editoras científicas internacionais.
Na prática, esses acordos combinam dois objetivos em um único contrato:
Acesso às revistas científicas para leitura por meio do Portal de Periódicos CAPES
Possibilidade de pesquisadores brasileiros publicarem seus artigos em acesso aberto sem pagar diretamente as taxas de publicação, ou com custos reduzidos
É uma mudança importante. Além de facilitar a publicação de pesquisadores vinculados a instituições participantes do portal, os acordos também ampliam a circulação internacional da ciência produzida no país, já que os artigos ficam disponíveis gratuitamente para leitores do mundo inteiro.
A iniciativa faz parte de um movimento global de transição para a chamada ciência aberta, que busca tornar o conhecimento científico mais acessível, transparente e colaborativo.
Para pesquisadores brasileiros, isso representa não apenas uma redução de barreiras financeiras, mas também uma oportunidade concreta de aumentar a visibilidade e o impacto internacional da pesquisa nacional.
Quem quiser conhecer os detalhes dos acordos, incluindo quais editoras e revistas estão contempladas, pode consultar as páginas oficiais da CAPES:
🔗 https://www.periodicos.capes.gov.br/index.php/informativos/136-acordos-transformativos.html 🔗 https://www.gov.br/capes/pt-br/assuntos/noticias/capes-firma-novos-acordos-de-leitura-e-publicacao
💭 Para refletir
Em um cenário em que publicar ciência de qualidade continua sendo um desafio, iniciativas como essa ajudam a fortalecer o sistema científico brasileiro e ampliam as possibilidades de participação dos pesquisadores do país no debate científico global.
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👓 CALEIDOSCÓPIO
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Tia ou tio de quem?
✍️ por Roberto Cooper (Redator do PediNews)
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A tradição (ou cultura) normaliza certos comportamentos que passam batidos pelo nosso dia a dia, sem que paremos para pensar neles. Pediatras e professoras são chamadas de tia ou tio e isso é uma característica da nossa cordialidade e afetividade. Somos latinos, somos assim, carinhosos, sensíveis. Será que é isso mesmo?
Vamos pegar os franceses, tão latinos quanto nós. Alguém já viu, ouviu, leu ou assistiu ao filme um pai ou mãe dizendo: “on va chez tante Christine pour te guérir de cette toux!". Ou, ao entregar o filho na escola diz: "Julien, va avec tante Sophie. Maman viendra plus tard te chercher.”
Com os ingleses e os americanos (não latinos), ocorre o mesmo. Nunca, nunca mesmo, vamos ouvir algum pai ou mãe dizer: "Get ready we are going to see Uncle Bob for your annual check-up." Até soa estranho, esquisito.
Então será que é só afeto e cordialidade ou essa tia ou tio é uma tentativa de atenuar algo com o qual temos uma dificuldade enorme de conviver que é a hierarquia natural que existe nas relações. Ou ainda com a impessoalidade (que não é sinônimo de falta de afeto) que tanto nos incomoda. Para quem duvida que a impessoalidade nos incomoda, cito uma frase emblemática que nos define: “você sabe com quem está falando? “. Dito de outra forma, eu não qualquer um, sou especial e quero ser tratado como tal. Não basta ser tratado com correção, justiça, adequação. Quero privilégios. Quero pulseira vip.
Além dessa forma de atenuar uma relação que tem características próprias, muito distante das relações familiares, chamar de tia ou tio não deixa de ser uma forma de esvaziamento ou desvalorização profissional. Tanto isso é verdade que professoras e professores saíram na frente dos pediatras e, um grande número, não aceita mais ser chamado de tia ou tio. Paulo Freire chamou isso de “manha ideológica” que reduz o médico a um cuidador afetuoso e não a um profissional altamente qualificado. Só para criar uma cena caricata, imaginemos que na nossa próxima ida a uma médica ou médico que nos atenda, comecemos a consulta por um efusivo “oi tia ou oi tio!”.
A cultura forja entendimentos ou visões de mundo. Uma tia ou um tio são bonzinhos, são legais e o ato médico fica oculto sob essa pseudo relação familiar. Um ato médico oculto é um de menor valor, subjetivo (percepção do grau de complexidade envolvido) e objetivo (preço da consulta).
A relação do pediatra com a família não se dá através de um falso parentesco com a ilusão que facilitaria a relação da criança com o médico. Essa relação e a confiança que a criança e sua família vão depositar na pediatra ou no pediatra, é uma construção baseada na escuta ativa, no respeito à criança e sua família, na capacidade técnica, nas habilidades lúdicas e de comunicação.
Imagino que muitas e muitos até gostem de ser chamados de tia ou tio e não vou gostar nada do que escrevi aqui. Não vejo problema algum em gostar de ser chamado disso ou daquilo, mas fica o convite para a reflexão sobre alguns aspectos que essas tio e tio não revelam. Valorizar a profissão também passa por chamá-la pelo nome e os profissionais que a exercem pelo título correspondente.
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📣 SOPERJ INFORMA! |
SOPERJ lança nova trilha sobre causas externas na infância e adolescência
✍️ por Anna Tereza Miranda Soares de Moura (Presidente da SOPERJ)
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A SOPERJ lança uma nova trilha de conteúdo dedicada às causas externas, abordando temas que atravessam a prática pediátrica cotidiana, mas que muitas vezes permanecem invisíveis na formação médica, como violência, trabalho infantil e outras situações de vulnerabilidade que impactam diretamente a saúde de crianças e adolescentes.
A iniciativa tem como objetivo oferecer aos pediatras informações baseadas em evidências, apresentadas em diferentes formatos, como vídeos e materiais educativos, contribuindo para ampliar o conhecimento e estimular a reflexão sobre problemas frequentemente presentes no atendimento clínico, mas ainda pouco discutidos durante a graduação e a pós-graduação.
A violência, em suas diversas formas, tem se destacado como uma das principais causas de agravos à saúde na população jovem. Acidentes e violências estão entre as principais causas de morte entre indivíduos de 1 a 39 anos, além de produzirem impactos profundos e muitas vezes invisíveis, como traumas emocionais, rupturas familiares e sofrimento psicológico.
Quando a violência ocorre no ambiente familiar, especialmente contra crianças, sua identificação torna-se ainda mais desafiadora. Muitas vezes envolta em silêncio, medo ou dificuldade de comunicação, essa realidade pode passar despercebida nos serviços de saúde.
Nesse contexto, o pediatra ocupa uma posição estratégica para prevenção e detecção precoce de situações de violência, especialmente durante consultas de acompanhamento e puericultura. A nova trilha da SOPERJ busca justamente fortalecer essa atuação, oferecendo subsídios para que os profissionais possam reconhecer sinais de vulnerabilidade, abordar o tema de forma sensível e contribuir para a proteção integral da criança.
Assista ao vídeo da Dra. Anna Thereza sobre o assunto:
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📚 EDUCAÇÃO CONTINUADA SOPERJ |
Confira os últimos eventos gravados! |
Fique por dentro do que rolou até agora.
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Medicina Contemporânea - 08 de outubro de 2025 |
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Clube do Pulmão - 13 de novembro de 2025 |
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Jornada Anual de Pneumologia Pediátrica - 06 de dezembro de 2025
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🗓️ AGENDA PEDIÁTRICA |
Confira os próximos eventos científicos da pediatria.
📆 Março
🩸 18/03 - Hemoterapia em Pediatria e Perinatologia: Racionalidade, limiar transfusional e aplicação prática em casos clínicos
🚑 25/03 - 1º Congresso Mundial, 5º Brasileiro e 5º Paulista de Urgências e Emergências Pediátricas
🧬 28/03 - 1º Simpósio de Cardiogenética em Pediatria da SOPERJ
📆 Abril
🫁 09/04 – 19h - Tuberculose na Pediatria – Casos Clínicos (link em breve no site da SOPERJ)
❤️🩹 10–11/04 - Curso PALS – Pediatric Advanced Life Support
🩺 29/04 → 02/05 - 21º Congresso Brasileiro de Nefrologia Pediátrica
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Por trás de cada edição, temos uma equipe dedicada de pediatras e redatores que transformam temas complexos em conteúdos práticos e leves.
🙋♂️ Leonardo Rodrigues Campos – Editor-Chefe LinkedIn 🙋♀️ Maria Elisabeth Lopes Moreira – Editora Adjunta Lattes
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